Dia Internacional dos Museus: uma celebração com notas de recomeço


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Dia Internacional dos Museus: uma celebração com notas de recomeço

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Patrícia Remelgado, Diretora do Pporto.pt, fala-nos dos inúmeros desafios dos museus em tempos de pandemia, da “reinvenção” das estratégias de comunicação e da importância das plataformas digitais

Texto de opinião de Patrícia Remelgado, Diretora do Pporto.pt

Num momento incomum da história global, o Dia 18 de Maio, dedicado à celebração dos Museus, ganha um significado especial. Em tempo de pandemia, a reabertura dos museus, em Portugal, foi anunciada para o dia de hoje, Dia Internacional dos Museus, mas irá acontecer de forma diferenciada. Os desafios colocados pela reabertura são mais do que muitos, estando a segurança dos profissionais e dos visitantes no cerne de todas as preocupações, e levando a que cada instituição e respetiva tutela formulem a sua própria “agenda de desconfinamento”, considerando as orientações de base que uma situação como esta compreende.

As portas dos museus mantiveram-se encerradas ao longo de várias semanas, mas muitas janelas virtuais se abriram, criando novas oportunidades de comunicação com os públicos, mesmo que num outro formato e utilizando novas ferramentas. Um pouco por todo o país, os museus promoveram iniciativas que procuraram, não só manter a sua ligação com os públicos, mas também incentivar à criação de dinâmicas participativas e colaborativas. Se há instituições que o fizeram sem grande esforço, à conta de uma estratégia que já integrava a componente digital, outras há que tiveram o mérito de se reinventar, utilizando os recursos disponíveis e beneficiando – sublinhe-se – do engenho, empenho e dedicação dos seus profissionais na manutenção de uma “pegada digital”. Para além destes, há ainda outros que se mantiveram no quase anonimato digital pela ausência de meios e competências que lhes permitisse desencadear uma presença online.

Neste quadro, que evidenciou muitas assimetrias no que ao panorama museológico nacional diz respeito, projetos como o “Mu.SA: Museum Sector Alliance” [1] ganham particular acuidade: a emergência de novos papéis profissionais, decorrente do ritmo acelerado da adoção das Tecnologias da Informação e da Comunicação, no setor dos museus é uma realidade e, neste contexto, a aquisição de competências é absolutamente indispensável, mas não só.

Após o tão esperado recomeço, e mesmo com um futuro que, por enquanto, terá de ser partilhado com o COVID-19, urge observar o que foi feito, muitas vezes sob a pressão de “estar online”, e definir uma estratégia para o futuro que considere a capacitação das equipas, a renovação dos equipamentos tecnológicos (não raras vezes, obsoletos) e a implementação de uma estratégia holística e integrada que inclua todos os domínios de atuação do museu, nomeadamente a comunicação, e a formação e inclusão dos públicos.

Efetivamente, é também esse o desafio que é lançado pela edição deste ano do Dia Internacional dos Museus sob o mote: “Museus para a Igualdade: Diversidade e Inclusão”. O museu como um lugar de todos e para todos, capaz de proporcionar experiências significativas para todos os públicos, independentemente das suas circunstâncias. O museu como um agente de mudança, capaz de refletir sobre a atualidade, nas suas múltiplas esferas, e contribuir para a reflexão construtiva sobre a sociedade, na sua dimensão política, social e cultural. Neste contexto, e mesmo considerando que o seu objeto não engloba todas as dimensões da inclusão social, uma referência à criação de um grupo de trabalho para desenvolver e apresentar a Estratégia Nacional de Promoção da Acessibilidade e da Inclusão dos Museus, Monumentos e Palácios na dependência da Direção-Geral do Património Cultural e das Direções Regionais de Cultura (Despacho 2183/2020, de 14 de fevereiro). Segundo o despacho publicado em Diário da República, tem por objetivo “a garantir igualdade de oportunidades de participação de um modo direto, imediato, permanente e autónomo aos espaços, tendo em linha de conta a eliminação de barreiras arquitetónicas, o acesso aos conteúdos através de audiodescrição, criação de percursos acessíveis, maquetes táteis, entre outros recursos tecnológicos, bem como promover medidas de incentivo à criação e à participação cultural inclusiva”.

Os tempos que se avizinham vão ser, certamente, muito desafiantes, e encerram muitas perguntas cujas respostas permanecem uma incógnita. O regresso à vida dita “normal” adivinha-se lento e com cuidados acrescidos. A garantia de segurança é um requisito almejado por todos e que, certamente, irá condicionar muitas escolhas e influenciar os hábitos de todos nós. No que aos museus diz respeito, nesta fase, garantir segurança implica, necessariamente, alterar a experiência museológica. As regras de distanciamento social e higiene vão vigorar durante muito tempo e condicionar, de sobremaneira, a programação dos museus, as experiências que proporcionam e a sua relação com os públicos.

Os resultados da bilheteira, muitas vezes o indicador por excelência do desempenho dos museus, é agora remetido para um segundo plano. O acesso está, por enquanto e durante algum tempo, vedado a grupos de visitantes, qualquer que seja a proveniência ou contexto. Os grupos escolares, subitamente impedidos de concretizar as visitas de estudo há muito agendadas, vêm adiada por largas semanas a ida ao Museu para uma experiência diferente. Persiste a dúvida se, porventura, o início do novo ano letivo, em setembro, traz consigo a normalidade desejada e, com ela, o regresso das escolas aos museus. Enquanto isso, e perante perguntas cuja resposta só o tempo dirá, é fundamental adequar as estratégias utilizadas pelos museus no cumprimento da sua missão e objetivos, nomeadamente, junto dos diferentes segmentos de públicos, e de acordo com os constrangimentos a que a situação obriga.

As escolas elegem, desde sempre, os museus como espaços de educação não formal, sublinhando o seu papel relevante na apreensão de novos conhecimentos ou o reforço das aprendizagens feitas dentro da sala de aula. No cenário atual, não é expectável que os museus abandonem esse papel de excelência, mas que desenvolvam diferentes abordagens que, não só minimizem os efeitos deste afastamento forçado, mas que também funcionem como estímulo a uma visita no futuro e, a curto/médio prazo, dos alunos com as suas famílias. Se a ida da escola ao museu está comprometida, a deslocação do museu à escola tem de constituir uma oportunidade. Neste contexto, a articulação dos museus, por exemplo, com o “Plano Cultural das Escolas”, proposto pelo Plano Nacional das Artes constitui uma mais valia, no papel que estes podem desempenhar no desenvolvimento de projetos junto das comunidades, “aproximando a arte e o património dos cidadãos, em particular das crianças e jovens”.

O museu é definido pelo ICOM – International Council of Museums como uma instituição que “adquire, conserva, investiga, comunica e expõe o património material e imaterial da humanidade e do seu meio envolvente com fins de educação, estudo e deleite”.

Deste modo, constituem-se como instituições de grande prestígio e valor simbólico, esteios de identidade e memória, estreitando laços de pertença com a comunidade e contribuindo, de forma inestimável, para a valorização do território, com o qual é necessário dialogar de forma integrada, nomeadamente com os restantes agentes que o constituem. Este é, também, um dos desafios que se colocam aos museus na atualidade, enquanto agentes de mudança social e desenvolvimento, capazes de se adequarem às novas exigências de uma sociedade em transformação permanente e cada vez mais consciente do seu papel e da importância da sua participação na vida cultural.

No dia em que muitos museus reabrem as suas portas, e outros tantos preparam o “desconfinamento”, celebremos os Museus, a Cultura e o Património.

“Uma mudança deixa sempre patamares para uma nova mudança” (Nicolau Maquiavel)

Referências:

[1] O projeto “Mu.SA: Museum Sector Alliance” é financiado pelo programa Europeu Erasmus+ / Alianças de Competências Setoriais. http://www.project-musa.eu/pt/

Artigo publicado por:

Patrícia Remelgado
Patrícia Remelgado

Patrícia Remelgado é licenciada em História de Arte pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (2000), onde realizou uma Pós-Graduação em Museologia (2004). Em 2008, concluiu o Mestrado em Museologia, na área da Gestão da Informação e, em 2015, o Doutoramento em Comunicação e Museus. Em 2015, concluiu a Pós-Graduação em Marketing Management, Porto Business. Diretora do Pporto.pt (www.pportodosmuseus.pt), desenvolve a sua atividade no domínio do Património Cultural, nomeadamente na vertente da Comunicação, Interpretação e Valorização do Património, nomeadamente na conceção de projetos culturais e de valorização do território.