Os Fortes da Terceira na Rota Liberal


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Os Fortes da Terceira na Rota Liberal

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Comemorando-se este ano o duplo centenário do Movimento de 24 de Agosto de 1820 e a doze anos de se celebrarem dois séculos do desembarque liberal em Arnosa de Pampelido, propõe-se que Angra do Heroísmo, Faial e o Porto se geminem como Cidades Liberais

No Encontro «Arquitectura Militar - Do Conhecimento Histórico à sua Função Actual» organizado em Outubro de 2002 pelo Instituto Açoriano da Cultura, Jorge A. Paulus Bruno afirmava: “Sucessivamente construído, abandonado, reconstruído, readaptado e até reutilizado para outras funções, este estimável património chega até nós – salvo pontuais excepções, profundamente degradado, senão, em alguns casos, já desaparecido ou pelo menos num estado de acelerada decadência ou ruína” [1]. Apesar disso, propunha a sua divulgação através de uma «Rota dos Fortes da Terceira» dando a conhecer os fortes existentes, os vestígios que ainda sobram de outros e encontrar nos locais onde outrora se situavam fortes, hoje já desaparecidos, elementos que testemunham as suas características [2].

A ideia vingou e publicou-se a «Rota dos Fortes e Fortalezas da Ilha Terceira», dinamizada pela Associação Regional do Turismo dos Açores, compreendendo 36 pontos de interesse sobre Arquitectura Militar distribuídos pelos concelhos de Angra e Praia da Vitória. Trata-se, é certo, do resultado de um levantamento amostral obtido de um universo de mais de 200 construções militares existentes em todo o Arquipélago.

Segundo Sérgio Rezendes, encontram-se em péssimo estado de conservação, na sua maioria, constituindo excepções os fortes de São Brás, em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, São João Baptista e São Sebastião, em Angra do Heroísmo, na Terceira e Santa Cruz, na Horta, Faial, que se encontram em «relativo estado».

A restante fortificação mais pequena ou já desapareceu levada pelo mar ou corre o risco de desaparecer nas próximas décadas [3].

Não aconteceu isso com o Forte de Santa Catarina do Cabo da Praia, no município de Praia da Vitória. Alvo de várias obras de reparação, algumas descaracterizantes [4]a sua reabertura estava em 2014, inserida na estratégia municipal de preservação do património histórico-cultural e promoção turística do concelho [5].

Muitos dos fortes que ainda existem, mesmo em ruínas, são importantes como testemunho da influência da Escola Italiana de Fortificação e que marca um ponto de viragem na Arquitectura Militar portuguesa ao introduzir o emprego do baluarte angular, processo construtivo que recebeu maiores desenvolvimentos no Séc. XVII com o sistema à Vauban [6] e que tem no Forte da Graça em Elvas um dos exemplos mais representativos. Daí a enorme relevância para o estudo da evolução da Arquitectura Militar de que se reveste o conjunto das fortificações da Terceira e de todo o Arquipélago.

Poderá o Turismo Militar contribuir para a sua Salvaguarda? Se atendermos a que as Portas da Cidade, construídas em 1783, no contexto da defesa de Ponta Delgada, constituíram a principal atracção visitada (79,8%), segundo o Plano Estratégico de Desenvolvimento Turístico [7], é expectável que, na Terceira e em todo o Arquipélago, as estruturas arquitectónicas militares possam vir a desempenhar papel fundamental na atractividade de visitantes desde que seja implementado um novo Plano Operacional [8] visando financiar o seu restauro.

Os fortes seriam depois integrados numa rota mais abrangente compreendendo a divulgação de outras edificações ligadas ao passado histórico das Ilhas. Neste particular, salientamos a necessidade de se evocar, através de visitas a edifícios e sítios relevantes, acontecimentos como as repercussões no pós 24 de Agosto de 1820 e adesão ao Vintismo, o período da instalação da Regência do Reino e a contribuição dos Açores no dealbar do Portugal Novo desde a chegada de D. Pedro em 22 de Fevereiro de 1832 até à organização e partida da Expedição Liberal em 15 de Junho de 1832.

Comemorando-se, este ano, o duplo centenário do Movimento de 24 de Agosto de 1820 e a doze anos de se celebrarem dois séculos do desembarque liberal em Arnosa de Pampelido, propomos que Angra do Heroísmo, Faial e o Porto se geminem como Cidades Liberais e os seus municípios procurem desde já, estabelecer um plano de cooperação no domínio da divulgação dos acontecimentos históricos ligados ao estabelecimento do Regime Constitucional pela promoção de uma Rota Liberal unindo a Terceira, S. Miguel e o Norte de Portugal.

Evocar pela divulgação para não se esquecer os que deixaram escrito na Fortaleza de São João Baptista de Angra: Antes morrer que em paz sujeitos e para evitar o apagar da memória com o Rei Libertador, por parte do Porto, Invicta Cidade, em cujo escudo municipal D. Pedro IV, em 4 de Abril de 1833, em pleno Cerco, mandou apor a Insígnia da Grã Cruz da Antiga e Muito Nobre Ordem da Torre e Espada de Valor, Lealdade e Mérito, servindo o Colar de orla ao mesmo escudo e tendo pendente a Medalha em honra da coragem e devoção cívica dos seus habitantes [9].

                                                                                                                                                                 

[1] BRUNO, Jorge A, Paulus – E porque não criar uma rota dos fortes na Terceira? In Revista «Pedra & Cal», n.º 17, Janeiro-Março, 2003, p. 35

[2] Idem, ibidem

[3] In https://www.tsf.pt/lusa/acores-tem-cerca-de-duas-centenas-de-fortificacoes-na-orla-costeira-8870639.html

[4] NOÉ, Paula – Forte de Santa Catarina do Cabo da Praia. In http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP­_PagesUser/SIPA.aspx?id:8173

[5] In http://www.cmpv.pt/index.php?op:noticias&pagant:&codnoticia:1861

[6] NUNES, António Lopes Pires – Entrada «Escola italiana» no ‘Dicionário de Arquitectura Militar’. Ed. Caleidoscópio. Apoio ‘Comissão Portuguesa de História Militar’, Lisboa, Dezembro, 2005, pp. 107

[7] Plano Estratégico de desenvolvimento turístico em Ponta Delgada 2017-2021. Elaboração: Fundo de Maneio. Ed. Câmara Municipal de Ponta Delgada. Junho, 2017, pp. 170

[8] Dado que o PO2014/2020 para os Açores não abrangeu construções militares embora louvavelmente tenha apoiado a reutilização do antigo Hospital Militar para Núcleo de História Militar Baptista de Lima

[9] Colecção Oficial da Legislação Portuguesa– Decreto de 4 de Abril de 1833, pp. 293

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ANTERO LEITE
ANTERO LEITE

Joaquim Antero Andrade Leite, aposentado, tem desenvolvido investigação em Património Cultural sendo autor do livro «As Pesqueiras do Rio Minho» Ed. COREMA, Caminha, 1999, e colaborado com artigos no «Boletim Cultural» da Câmara Municipal de Melgaço, Revista «Sítios e Memórias»,  Revista «Vilas e Cidades»,  Revista «Pedra & Cal», do GECORPA e Revista «O Tripeiro». É co-fundador da A.C.E.R. - Associação Cultural e de Estudos Regionais, de que é presidente de Direcção e no âmbito dos projectos realizados por esta Associação, coordenou exposições sobre Estuques e Fingidos, Órgãos Históricos da cidade do Porto, Pesqueiras do Rio Minho  e é co-autor das fichas de caracterização do Património Cultural do Vale do Minho, publicado no site http://www.emi.acer-pt.org/ no qual se inserem várias construções militares localizadas na margem esquerda do Rio Minho. Cumpriu serviço militar tendo frequentado o COM 1960 da Escola Prática de Artilharia e prestou comissão em Angola, como Alferes Miliciano de Artilharia (1962-1964), integrado na CART294 DO BART346.