Património histórico-militar como base do desenvolvimento económico-social


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Património histórico-militar como base do desenvolvimento económico-social

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Texto de opinião por Mafalda Nascimento, Secretária-Geral da Associação Ordem dos Pobres Cavaleiros do Templo de Jerusalém (OPCTJ)

Biologicamente, o humano é um ser sociável. As pessoas procuram no turismo, tendencialmente, viver novas experiências. As decisões e ações do visitante resultam de preferências, desejos, expectativas e da sua envolvente sociocultural. São estes os fatores que determinam a escolha do destino e experiências da viagem. Torna-se, portanto, relevante conhecer as tendências e motivações, por influenciarem a procura e consequentemente, a oferta no mercado. No entanto, também o meio envolvente é um influenciador da decisão de consumo. Neste caso, a influência do marketing contribui para a estratégia, na medida em que os profissionais do turismo, ao identificarem oportunidades, passam a influenciar a escolha do visitante, atraindo um ou certos segmentos de mercado em detrimento de outros. Numa perspetiva de aproveitamento equilibrado e sustentável das potencialidades locais, o turismo regional deve contribuir para a diversificação da oferta de produtos e destinos, atraindo turistas com diferentes tipos de motivações.  

O património cultural tangível e intangível tem sido um meio gerador de riqueza de extrema relevância em Portugal nos últimos anos e motor do desenvolvimento regional, sobretudo em áreas rurais. Neste processo, os produtos endógenos são determinantes, por serem originários da própria região, o fator de diferenciação e que podem originar em seu torno uma organização e criação de produtos turísticos, assegurando assim as necessidades de futuras gerações.

Os recursos endógenos têm ainda assumido um papel preponderante na descentralização, no delineamento de estratégias, diminuição das assimetrias nos territórios e, como tal, no desenvolvimento económico-social. Este modelo de desenvolvimento regional integrado assenta no “bem comum”, coletivo, estratégico, para a evolução económica e social de um território com base no turismo, estimulando as atividades características e conexas (que servem tanto o turismo como as comunidades). O modelo permite gerar riqueza e a sua redistribuição, numa política de retorno para os territórios, por meio do progresso do tecido empresarial e dos seus produtos, no seguimento da exploração sustentada dos recursos endógenos. Desta forma, o turismo divulga o produto, estimula a oferta e constitui o retorno do investimento, o que permite que a região crie condições de autossuficiência pela adaptação, iniciativa, inovação e competitividade.

É ainda importante realçar a necessidade do envolvimento da comunidade no desenvolvimento dos territórios recetores de turismo. A comunidade deve integrar as linhas estratégicas, uma vez que os residentes são consumidores, parte da oferta, e representantes da cultura local. Como tal, há que aliar a sua importância na experiência proporcionada ao turista à qualidade de vida dos residentes, em termos de: fortalecimento da base económica local, dinamização dos vários sectores de atividade característicos do turismo e conexos, investimento em serviços (financeiros, de segurança, de saúde, de transportes, etc.), infraestruturas e criação de emprego. Nesse contexto, é fundamental que o sector privado contribua para a preservação do património, a par com o sector público, com vista a um crescimento e desenvolvimento sustentável do turismo.

Por princípio, a sociedade deve poder beneficiar do património, tendo a responsabilidade de o proteger, preservar e garantir a sua continuidade para as gerações futuras como legado e testemunho de cultura, tradições, costumes e identidade. O papel do Estado e o posicionamento das estruturas centrais e locais devem garantir que as propostas e ações abranjam esses princípios e que se alinhem com esse “bem comum”, abrindo o património à sociedade civil. Cabe ao poder político fazer face ao aumento da despesa pública em infraestruturas, segurança, condições e vias de acesso aos locais que influenciam positivamente o afluxo turístico. No entanto, é essencial que existam entidades - como as Comunidades Intermunicipais (CIMs), os mecenas, cooperativas e grupos associativos - dispostos a apostar neste modelo endógeno integrado e que partilhem uma visão comum de iniciativa e estratégia não institucional, com base local, numa gestão de proximidade. Neste seguimento, as entidades locais e regionais, sejam elas públicas, privadas ou associativas, assumem uma importância decisiva no planeamento e no fomento regional da atividade turística. Esta descentralização do turismo tem como consequência a possibilidade de obtenção de fundos através do enquadramento nos vários instrumentos de financiamento disponíveis para tal. Esses instrumentos constituem um suporte significativo à promoção turística do território e às empresas na persecução das suas estratégias de investimento e desenvolvimento, o que por sua vez origina a redistribuição da riqueza nos territórios recetores de turismo e a maximização dos benefícios por parte das entidades que os exploram e das comunidades. De facto, e na prática, são todas essas entidades institucionais, privadas e associativas locais que têm vindo a apostar na diversificação e diferenciação da oferta como fonte de riqueza local, nomeadamente na cultura, lazer, natureza, festas e feiras, e gastronomia e vinhos.

A situação de saúde pública atual levou a uma procura de locais e serviços capazes de responder à necessidade de manter o distanciamento social. Tal mudança de comportamento levou a um aumento da procura de locais de baixa densidade por serem percecionados pelo consumidor como sendo mais seguros. Muitos desses territórios, no interior, rurais, possuem património ainda pouco divulgado e que poderá agora ser visto como uma alavanca para o desenvolvimento turístico pós-pandemia.

Relembro um estudo da Spira (agência de revitalização patrimonial, detentora da plataforma patrimonio.pt), sobre a avaliação do valor económico e social do património cultural. Segundo esse estudo, o património classificado encontra-se distribuído de forma homogénea pelo território continental e insular. Mais ainda, os pontos patrimoniais concentram-se especialmente no interior e junto à fronteira. Este ativo, tão pouco trabalhado, pode e deve ser explorado, de forma sustentável, para fortalecer e diversificar a oferta nos territórios de baixa densidade.

É neste cenário que encontramos associações como o Turismo Militar (ATMPT), a Associação Ordem dos Pobres Cavaleiros do Templo de Jerusalém (OPCTJ) e tantas outras associações criadoras de produto turístico ou de animação turístico-cultural. Em comum, partilham o facto de se tratarem de associações com ou sem fins lucrativos, que se direcionam para: (i) o desenvolvimento regional com base no turismo; (ii) promoção dos territórios; (iii) divulgação da história e da identidade nacional; (iv) atuação nos domínios da investigação e cooperação técnico-científica; (v) apoio a atividades educativas; (vi) proporcionar atividades culturais, artísticas, desportivos, recreativos, sociais e educacionais; (vii) organização de eventos temáticos; e (viii) procuram, enfim,  o desenvolvimento de marcas e produtos na área da ativação turística do património histórico. No caso da OPCTJ, com enfoque no património, memória e herança templários, dedica-se ainda a ações de apoio social e humanitário.

Existe muito património militar em Portugal a recuperar, a abrir à comunidade e a integrar a esfera turística. Neste contexto, terão trabalho a desenvolver o Turismo Militar, os municípios, os parceiros, bem como as empresas de animação turística, restauração e bebidas, hotelaria e outras mais. Naturalmente, um produto desenvolvido com base na estratégia de diferenciação, leva a uma menor sensibilidade ao preço por parte do consumidor, atraindo, portanto, mais visitantes.

Neste âmbito, tanto o Turismo Militar como a OPCTJ procuram diligenciar a conjugação e coesão entre diversos municípios, com vista à promoção e criação de produto turístico de que o país é rico e que atrai vários segmentos de mercado. Trata-se de um mercado que tem ainda muito a desenvolver. Embora outros locais se encontrem associados à OPCTJ, como Fonte da Arcada, Guimarães, Vila Nova de Gaia e Santa Maria da Feira, a organização avança numa primeira fase, no âmbito da parceria, com territórios anteriormente mais fortemente associados ao domínio Templário, nomeadamente aqueles que se encontram maioritariamente localizados na defesa da linha do médio Tejo. São eles Tomar, Idanha-a-Nova (que engloba Idanha-a-Velha, Penha Garcia e Monsanto), Soure, Alvaiázere (Pussos) e Santarém.

Em cenário pós-covid, mais do que nunca, constituem os fatores-chave a criatividade e união, com aproximação à realidade económica, empresarial e institucional. Na retoma, em cenário de crise económica, será imprescindível essa conjugação concertada e partilhada de esforços entre os diversos atores, com base na estratégia de agregação de território, a fim de criar respostas aos novos desafios que se irão impor. Nesse seguimento, os agentes deverão apostar numa promoção dos produtos endógenos a nível interno e externo, com o envolvimento da comunidade e dos empresários, perseguindo um turismo sustentável, como fonte de receita e a favor do desenvolvimento do país. Não esqueçamos neste processo o papel dos operadores turísticos, do retalho, dos guias-intérpretes e da animação turístico-cultural, dada a sua importância na qualidade, na diferenciação, na promoção, no cross-selling e no próprio terreno.

No caso do património militar, a abordagem educacional será um recurso que tem ainda muito por explorar, num país tão rico nesta temática e com séculos de história. A criação de oportunidades para que as gerações mais jovens participem em atividades lúdicas poderá ser um caminho a seguir, tal como já acontece na Festa Templária, evento anual tomarense com duração de uma semana. É importante captar a atenção de gerações fora deste nicho de mercado, envolvendo os jovens num plano de educação patrimonial que os induza a ganhar gosto e curiosidade pela história e a conservar a memória do povo. Mais ainda, são eles que vão influenciar os familiares e as gerações futuras, para que todos valorizem e preservem o património cultural, ou seja, a nossa Identidade - pelo turismo, pelo desenvolvimento territorial e criação de valor, pelo futuro de todos nós.

 

Referências bibliográficas:

Associação da Ordem dos Pobres Cavaleiros Templários [OPCTJ]. (2021). OPCTJ. Retirado de: https://www.opctj.pt/

Associação de Turismo Militar Português [ATMPT]. (2015). Carta Nacional do Turismo Militar. Retirado de: https://www.turismomilitar.pt/index.php?lang=pt&s=publications&id=2&title=Carta_Nacional_do_Turismo_Militar

Nascimento, M., Marques, F & Alcântara, A. A. (2017). Turismo cultural, itinerários turísticos e impactos nos destinos. Tourism and Hospitality International Journal, 9(1), 49-71.

Nascimento, M., Abranja, N. & Marques, A. P. (2016). As motivações para visitar Tomar, em Portugal. Cenário, 4(6), 45-59.

Nascimento, M., Abrantes, A. & Costa, N. (2014). O turismo no desenvolvimento regional e o seu financiamento. Tourism and Hospitality International Journal, 3(1), 30-45.

Patrimonio.pt. (2020). Estudo "Património Cultural em Portugal: Avaliação do Valor Económico e Social". Retirado de: https://www.patrimonio.pt/

Artigo publicado por:

Mafalda Nascimento
Mafalda Nascimento

Secretária-Geral da OPCTJ – Associação Ordem dos Pobres Cavaleiros Templários de Jerusalém.

Licenciada em Biologia e Mestre em Biologia Humana e Ambiente pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FC-UL), esteve ligada à investigação científica nas áreas de neurociências e oncogénese, em faculdades de medicina e institutos de pesquisa em Portugal (FCM/CEDOC-UNL) e no estado de São Paulo, Brasil (FMB-UNESP). No seguimento do seu hobbie, enveredou pelas áreas dos eventos e turismo em geral. Licenciou-se em Turismo pelo Instituto Superior de Lisboa e Vale do Tejo (ISCE), e pós-graduou-se em Tour Guiding pelo Instituto Superior de Novas Profissões (INP-Universidade Lusófona) e em Organização e Gestão de Eventos pelo ISCE. Publicou vários artigos, em coautoria com o Departamento de Turismo do ISCE. Ao longo dos últimos 15 anos, tem mantido fortes ligações à cidade de Tomar e a associações locais, no âmbito do turismo interno e externo. Adicionalmente, envolve-se, há mais de duas décadas, em projetos de ação social.