Histórias de Guerra e Paz


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Histórias de Guerra e Paz

Histórias de Guerra e Paz

Entre o Mar, a Terra e o Ar, Histórias de Guerra e Paz. ILHA TERCEIRA –Açores. 500 anos de história militar

Quem decida visitar a ilha Terceira, nos Açores, tendo por inspiração as questões militares, digamos que terá um magno problema: a escolha.

É que, durante décadas, Angra e a sua baía foram a base da Armada das Ilhas, encarregada de proteger os navios de especiarias e metais preciosos, provenientes do oriente e das américas.

Será interessante perceber o seu modo de atuar, ziguezagueando por entre as ilhas e comboiando os navios a proteger, a fim de evitar os ataques de gente como Francis Drake, Cumberland, Grenville e outros, revelando um modo de guerra, no mar, inteligente e dinâmico.

Duas fortalezas, São Sebastião e São João Baptista do Monte Brasil, memórias de um posicionamento estratégico ímpar e com evoluções no edificado que vão desde o século XVI à segunda Guerra Mundial, merecem visita detalhada. São João Baptista é tida, mesmo, com os seus cinco quilómetros de perímetro, como a maior fortaleza de origem espanhola, no Mundo.

As batalhas da Salga (julho de 1581), das Mós (julho de 1583) e da Praia (agosto de 1829) foram três tentativas de invasão que revelam técnicas e táticas diversas, todas elas acontecidas no litoral da ilha. Apenas uma se saldou em vitória do atacante, a das Mós, e quem visitar, hoje, a Sala das Batalhas do Escorial, verá uma bela representação desse feito, conduzido que foi por D. Álvaro de Bazán, herói de Lepanto.

Glória maior das gentes de terra foi, porém, o cerco e tomada do “castelo do Monte Brasil”, (1641-42) na sequência da revolta contra a união com Espanha de dezembro de 1640. As tropas de ordenanças foram, aqui, as protagonistas de um cerco, conduzido sem auxílio de “gente de linha”, mas que conseguiu o seu objetivo: retirar do Monte Brasil os terços espanhóis.

Não será necessário recordar que Angra e a Terceira foram, também, a base de apoio, durante cinco anos, da causa liberal, transformando-se a cidade num quartel, ocupando casas dos partidários contrários e aí albergando as diversas unidades militares entretanto chegadas, derretendo sinos e pratas das igrejas para fundir, de modo bastante artesanal, uma moeda de urgência, por certo muito bem apelidada de “maluco”.

Mais próxima, vindo até hoje e passando pelas duas guerras do Iraque, ou outras situações como a guerra do Yom Kippur, a ponte aérea para Berlim ou a vigilância de controle dos submarinos soviéticos, temos a base das Lajes, surgida em meados da segunda Guerra Mundial, quando era necessário conseguir, de modo definitivo, bloquear o poderio submarino nazi. Em 2018 serão 75 anos de evolução e vida! Visitar o pequeno cemitério de guerra, próximo, tem impacto em qualquer pessoa que lá entre.

A mobilização de forças portuguesas para os Açores, nessa ocasião, e as mais de três dezenas de pequenos fortes, que existiram em redor da ilha desde o século XVI e que foram, alguns deles, usados e adaptados, pela última vez, durante esse conflito, completam, de algum modo, o braçado de argumentos com que podemos contar, se não lhe quisermos acrescentar episódios da guerra civil americana, por exemplo.

Enfim, por tudo isso, é possível afirmar a ilha Terceira, sem sombra de dúvida, como um lugar a não perder e a visitar com calma, no âmbito do turismo militar, não apenas pelos testemunhos físicos, no terreno, mas pelos seus múltiplos relacionamentos mundiais.

Aquando do ciclo de conferências “Cooperação e Competitividade”, promovido pela Câmara de Comércio de Angra do Heroísmo e na sessão vocacionada para a reflexão sobre temáticas relacionadas com o turismo, tendo por base o crescimento e desenvolvimento sustentável dos Açores, acontecida a 5 de maio de 2017, foi possível dar os primeiros passos na afirmação da riqueza deste recurso, ímpar, no contexto nacional e, mesmo, internacional.

Dr. Francisco Maduro-Dias

Museólogo e gestor de Património Cultural
Presidente da comissão executiva da rede de museus e coleções visitáveis dos Açores